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# Gémeos Geopolíticos: A Simetria Funcional do G7 e dos BRICS no Reordenamento Mundial
- URL: https://atopicosphere.ghost.io/pt/artigos/gemeos-geopoliticos-a-simetria-funcional-do-g7-e-dos-brics-no-reordenamento-mundial/
- Published: 2026-03-23T00:00:00.000Z
- Updated: 2026-10-08T18:33:11.000Z
- Description: Publicado em 23 de Março de 2023
- Author: amorsantos
- Tags: #pt, #artigo

A análise da governação global contemporânea é sistematicamente obscurecida por uma narrativa maniqueísta: de um lado, um "Ocidente liberal regido por regras"; do outro, um "bloco de potências revisionistas". Esta leitura é confortável para ambos os lados — cada um precisa do outro como espantalho — mas é estruturalmente falsa. Vistos de fora, com a frieza de um analista que não pertence a nenhuma das esferas, o G7 e os BRICS não funcionam como modelos ontologicamente antagónicos. São gémeos geopolíticos espelhados: dois fóruns nascidos de histórias e retóricas distintas, que convergem na mesma premissa existencial — servir de plataforma de legitimação, coordenação estratégica e projeção da liderança de uma superpotência tutelar sobre a sua respetiva esfera de influência.

### **A anatomia da simetria**

Comecemos pela semelhança mais evidente e menos reconhecida: nem os Estados Unidos nem a China podem exercer a sua primazia de forma puramente unilateral sem incorrer em custos diplomáticos incomportáveis. As duas superpotências precisam de diretórios de validação multilateral — fóruns onde as suas agendas nacionais possam ser vestidas com o manto do consenso coletivo. O G7 permite a Washington apresentar a sua política externa como o "consenso do mundo desenvolvido"; os BRICS oferecem a Pequim o aval diplomático para projetar as suas ambições como a "vontade coletiva do Sul Global". A gramática é idêntica; muda apenas o léxico.

A simetria estende-se à instrumentalização dos membros intermédios. Em ambos os agrupamentos, as potências de escala média desempenham o papel de fiadores de credibilidade. No G7, a presença da Alemanha, da França, do Japão ou do Reino Unido confere densidade institucional e peso normativo às diretrizes concebidas em Washington. Nos BRICS, o Brasil, a Índia e a África do Sul garantem que o fórum não seja percebido como um mero apêndice diplomático do Partido Comunista Chinês, mas como um clube plural e representativo. Em ambos os casos, o mecanismo é o mesmo: os médios potências não co-decidem; legitimam. São coassinaturas com valor notarial, não coautores com poder de agenda.

As diferenças entre os polos são reais, mas de superfície. A matriz ocidental agrega por valores partilhados, alianças de segurança vinculativas e elevada institucionalização, legitimando-se no discurso da "ordem internacional baseada em regras"; a matriz não-alinhada agrega por interesses geoeconómicos e por um soberanismo pragmático que se reclama da multipolaridade e da não-ingerência. Mas a função é uma só: estruturar uma esfera de coerção e atração normativa sob liderança tutelar.

### **O G7: o Atlântico Norte centralizado**

Criado nos anos 70 para coordenar a resposta aos choques económicos da época, o G7 evoluiu de fórum informal de ministros das Finanças para braço político e estratégico da liderança norte-americana. A agenda central — das sanções à Rússia às restrições de semicondutores aplicadas à China — é fundamentalmente concebida em Washington e depois harmonizada pelos restantes membros. E o fórum funciona como um amplificador de poder regulatório: as diretrizes nele adotadas convertem-se em padrões e sanções internacionais impostos ao resto do mundo através do controlo do sistema financeiro dominado pelo dólar. É um mecanismo de captura regulatória à escala planetária.

### **Os BRICS: o espelho inverso**

A trajetória do outro gémeo é a imagem refletida. Nascido como um acrónimo de investidores ("BRIC"), formalizado depois como bloco político, o grupo foi progressivamente moldado por Pequim para desempenhar, no ecossistema não-ocidental, a exata função que o G7 cumpre no ocidental. A China percebeu algo decisivo: não precisa de impor um modelo político homogéneo para exercer liderança. Ao promover o "soberanismo absoluto", atrai autocracias, democracias iliberais e nações não-alinhadas que rejeitam as condicionalidades políticas exigidas pelo Ocidente. E, tal como Washington usa o FMI, o Banco Mundial e o SWIFT para projetar poder, Pequim instrumentaliza os BRICS para erguer uma arquitetura financeira paralela — o Novo Banco de Desenvolvimento, linhas de *swap* cambial, o sistema de pagamentos CIPS, liquidação energética em moedas locais — que imuniza o grupo contra o alcance das sanções americanas. O escudo de um é, ponto por ponto, a réplica do escudo do outro.

### **Conclusão: a bipolarização funcional**

Categorizar o G7 e os BRICS como gémeos geopolíticos revela a natureza espelhada do reordenamento em curso. O que está a acontecer não é o triunfo do multilateralismo universal, mas a sua bipolarização funcional. Tal como o G7 existe para estruturar e legitimar a liderança dos EUA sobre o ecossistema ocidental-liberal, os BRICS tornaram-se o veículo indispensável da China para consolidar a sua preeminência no ecossistema não-alinhado. O sistema internacional não caminha para uma ordem verdadeiramente multipolar, mas para uma rivalidade estruturada entre dois blocos espelhados, cada um dirigido por uma superpotência e cada um sustentado por médios potências que confundem a proteção do padrinho com autonomia própria.

A consequência para todos os outros — e aqui falo sobretudo para a Europa, que escolheu ser coadjuvante de um dos gémeos — é incómoda: quem só vê antagónicos onde existem espelhos acaba por escolher entre duas versões da mesma subordinação.