G7 e BRICS no Novo Reordenamento Global: A Europa Coadjuvante e a "Rota do Ressentimento" do Sul Global
Publicado em 23 de Março de 2026
Há uma ironia estrutural na arquitetura do poder contemporâneo: os dois blocos que se apresentam como protagonistas do novo reordenamento global — o G7 e o BRICS alargado — são, ambos, construções de conveniência. Um perdeu a capacidade de ditar regras universais; o outro nunca teve verdadeiramente intenções de as substituir por um projeto comum. Entre ambos, o sistema internacional deixa de ser um tabuleiro de xadrez e passa a assemelhar-se a um mercado onde se negoceia lealdade — e onde a moeda de troja é o ressentimento.
A Europa no papel de coadjuvante
Comecemos pelo lado aparentemente mais forte. O G7 foi, durante três décadas, o diretório executivo da economia mundial. Hoje, consolida-se crescentemente como um bloco de concertação política sob liderança hegemónica dos Estados Unidos — e a União Europeia, apesar do tamanho da sua economia e do ambição do seu discurso, ocupa nele uma posição sobretudo funcional.
A promessa de "autonomia estratégica europeia", tão enfatizada na última década, esbarrou em realidades duras. A arquitetura de segurança do continente revelou-se profundamente dependente do chapéu de proteção militar norte-americano, via OTAN, e essa dependência redesenhou a hierarquia interna do bloco ocidental. A Europa assume hoje uma tripla condição:
É, primeiro, extensão de mercado. A UE tornou-se o grande espaço de absorção do capital, da tecnologia e das exportações energéticas americanas — a transição acelerada da dependência do gás russo para o GNL norte-americano é o exemplo mais perfeito desta substituição de senhorio. E, ao mesmo tempo, o seu poder regulatório, o famoso Brussels Effect, é frequentemente mobilizado não para projetar autonomia, mas para harmonizar e operacionalizar regimes de sanções e restrições comerciais decididos em Washington.
É, segundo, subordinada estratégica. A política europeia em relação à China e ao Indo-Pacífico reflete, em larga medida, as prioridades de segurança nacional dos EUA. O de-risking, apresentado em Bruxelas como uma via intermedia entre decoupling americano e apaziguamento, alinha-se estruturalmente com as metas de contenção tecnológica fixadas do outro lado do Atlântico.
É, terceiro, coadjuvante geopolítica. Nas grandes decisões de segurança global, a diplomacia comunitária perdeu capacidade de intermediação autónoma; valida multilateralmente, financia, mas raramente inicia.
A ironia é dupla: a Europa é o único membro do G7 com uma verdadeira vocação normativa multilateral — e é precisamente essa vocação que o arranjo atual impede de exercer.
O diagnóstico de Pequim
Do outro lado, a China fez algo que o Ocidente insiste em subestimar: leu com precisão as fraturas do sistema que pretendia preservar. Enquanto o G7 repetia a defesa da "ordem internacional baseada em regras", Pequim identificou o ressentimento do Sul Global — e percebeu que esse ressentimento não é abstração, mas um material geopolítico com aplicações concretas.
Esse descontentamento assenta em três assimetrias bem reais. A assimetria das sanções: o uso do dólar e da infraestrutura financeira ocidental, incluindo o sistema SWIFT, como ferramenta de coerção gerou apreensão generalizada entre economias emergentes que não pretendem ser o próximo alvo. A perceção de duplos critérios: a assimetria de resposta do Ocidente a conflitos e crises alimentou a convicção de que o direito internacional é aplicado em função dos interesses das potências ocidentais. E a marginalização institucional: a estagnação das reformas do FMI e do Banco Mundial, onde o poder de voto não reflete o peso atual das economias emergentes, criou um défice de representatividade que nenhum discurso consegue disfarçar.
A partir deste diagnóstico, Pequim construiu a "Rota do Ressentimento": uma estratégia que converte descontentamento em alavancagem. Os instrumentos são conhecidos — capital sem condicionalidade política, via Banco de Desenvolvimento da China ou o Novo Banco de Desenvolvimento; canais de liquidação em moedas locais e sistemas alternativos como o CIPS, que funcionam como apólice de seguro contra sanções; e, sobretudo, a recusa em exigir adesão ideológica. O BRICS não pede aos seus membros que escolham um campo. Explora o multialinhamento, permitindo que países emergentes pressionem o G7 mantendo pontes económicas com Pequim. É a estratégia exata que o G7 não consegue replicar — e a principal razão da sua crescente dificuldade em isolar diplomática ou economicamente qualquer adversário.
Conveniência, não construção
Daí o título: duas inutilidades convenientes. O G7 já não governa a economia mundial — os seus membros representam hoje uma quota decrescente do PIB global — mas é convenientemente útil como instrumento de legitimação política do alinhamento atlântico. O BRICS não é uma aliança — os seus membros mantêm rivalidades regionais profundas, do Irão à Arábia Saudita, da Índia à China — mas é convenientemente útil como plataforma de negociação coletiva, como forma de as economias emergentes obterem no bloco aquilo que o sistema institucional lhes recusa na reforma.
Não há, portanto, um confronto dialético entre modelo liberal e modelo autoritário, como quer a retórica de ambos os lados; há uma disputa de atratividade entre duas arquiteturas de conveniência. O G7 oferece proteção e mercado àqueles que aceitam as suas normas; o BRICS+ oferece margem de manobra àqueles que não as aceitam integralmente. A maior parte do mundo — e isto é o dado decisivo — escolhe não escolher.
Conclusão
O confronto contemporâneo não se trava apenas no terreno militar, mas no domínio da atratividade dos modelos de governação global. Ao aceitar um papel de coadjuvante no seio do G7, a União Europeia comprometeu a sua capacidade de projetar uma voz autónoma — precisamente a voz que poderia dialogar com as economias emergentes sem as empurrar para os braços de Pequim. Essa lacuna foi habilmente ocupada: a China transformou o ressentimento acumulado do Sul Global no motor de uma reordenação geopolítica, consolidando o BRICS como o principal contrapeso institucional ao Ocidente político.
O dado final pertence ao Sul Global: nunca o multialinhamento rendeu tanto. Enquanto o G7 e o BRICS se apresentarem como únicas alternativas, a maioria dos países não escolherá entre eles — cobrará a ambos pelo privilégio da sua atenção.